Agentes do ICE enfrentam exaustão e pressão sob política migratória de Trump

Por Ted Hesson, Tim Reid, Nicole Jeanine Johnson – Independent

A política de repressão à imigração ilegal promovida pelo governo Donald Trump tem gerado desgaste e frustração entre os agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês). Impulsionada por um aumento recorde de recursos e maior liberdade para realizar operações, a agência enfrenta dificuldades para lidar com a pressão por resultados e a crescente desaprovação pública.

Segundo relatos de dois agentes em atividade e nove ex-funcionários do ICE, os profissionais estão sobrecarregados com a meta imposta pela Casa Branca de realizar cerca de 3 mil prisões por dia, dez vezes mais do que a média diária registrada no ano anterior, sob o governo do democrata Joe Biden. Embora todos os entrevistados apoiem a aplicação das leis de imigração, muitos criticam a abordagem do governo Trump, que prioriza números em detrimento da segurança e da eficácia.

Os agentes relatam jornadas exaustivas, mudanças frequentes na liderança da agência e o temor constante de demissão por não atingirem as metas. Além disso, muitos investigadores especializados em crimes como tráfico humano e atuação de gangues transnacionais foram transferidos para tarefas rotineiras de fiscalização migratória, o que gerou frustração interna.

A pressão também se intensificou com a exposição pública. Imagens de agentes mascarados e armados algemando pessoas em ruas, locais de trabalho, escolas, igrejas e até em suas casas têm circulado amplamente nas redes sociais, alimentando críticas à atuação da agência. Vídeos de prisões em locais públicos viralizaram, provocando indignação entre moradores e ativistas.

Dados do próprio ICE, obtidos pelo projeto Deportation Data Project da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em Berkeley, indicam que, nos seis primeiros meses do governo Trump, o número de prisões de pessoas sem antecedentes criminais subiu para 221 por dia contra 80 por dia no mesmo período do ano anterior, sob Biden. Ainda assim, 69% das detenções envolviam indivíduos com condenações ou acusações criminais pendentes.

Em entrevista à agência Reuters, Tom Homan, responsável pela política de fronteiras do governo Trump, reconheceu que a sobrecarga e a realocação de agentes especializados causaram descontentamento. No entanto, justificou as medidas com base na declaração de emergência nacional feita por Trump em 20 de janeiro. “Alguns prefeririam estar investigando outros crimes, eu entendo, mas o presidente declarou uma emergência nacional”, afirmou Homan, que atua na área de imigração há mais de 30 anos.

Apesar das críticas internas, Homan acredita que a moral da equipe irá melhorar com a contratação de novos agentes. O governo lançou uma campanha de recrutamento em larga escala, com o objetivo de contratar 10 mil novos funcionários em quatro anos. A iniciativa, financiada por um pacote de US$ 75 bilhões aprovado pelo Congresso em julho, inclui anúncios em redes sociais como Instagram e YouTube, com slogans patrióticos como “A América precisa de você”.

O Departamento de Segurança Interna (DHS), ao qual o ICE está subordinado, minimizou as preocupações sobre o clima interno. Um alto funcionário do DHS afirmou que os agentes estão mais incomodados com agressões e críticas de políticos democratas do que com as metas de trabalho. “Eles estão animados por poderem voltar a fazer seu trabalho”, disse.

No entanto, o impacto das ações do ICE na vida cotidiana de imigrantes e suas famílias tem sido amplamente noticiado. Casos de estudantes detidos a caminho da escola, pais presos ao deixar os filhos, e trabalhadores abordados em pontos de ônibus ou estacionamentos de lojas como a Home Depot têm gerado comoção. A imagem da agência, já desgastada durante o mandato de Trump entre 2017 e 2021, voltou a ser alvo de protestos e campanhas como “Abolish ICE” (“Abolir o ICE”).

A aprovação pública da política migratória de Trump caiu de 50% em março para 43% em agosto, segundo pesquisa da Reuters/Ipsos. Para muitos agentes, a frustração é crescente. “No início, alguns colegas diziam que estavam felizes por poderem agir sem restrições. Agora, estão sobrecarregados”, relatou um ex-funcionário. “Eles prefeririam voltar ao foco em criminosos. Antes, podiam dizer: ‘Estamos prendendo criminosos’. Hoje, isso é mais difícil.”

Foto: Getty

Fonte: Independent

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