Por Pooja Salhotra – New York Times
O presidente da Texas A&M University, Mark Welsh, deixará o cargo nesta sexta-feira, segundo anunciou o Conselho de Regentes da universidade na quinta-feira. A decisão acontece após uma série de críticas relacionadas à condução de uma controvérsia envolvendo um curso de literatura infantil que abordava a existência de mais de dois gêneros.
A crise teve início quando a universidade demitiu a professora responsável pela disciplina, Melissa McCoul, e afastou dois administradores envolvidos no caso. O episódio ganhou destaque nacional depois que uma estudante gravou uma discussão com McCoul, citando o presidente Donald Trump, que defende o reconhecimento de apenas dois gêneros.
O chanceler do sistema universitário, Glenn Hegar, elogiou Welsh por sua dedicação à instituição, mas afirmou que este é o momento adequado para uma mudança na liderança, visando garantir a excelência da universidade nos próximos anos.
O Conselho de Regentes informou que nomeará um presidente interino para garantir uma transição tranquila e iniciará uma busca nacional por um novo dirigente permanente.
O vídeo da estudante viralizou nas redes sociais após ser divulgado por um deputado estadual. Políticos republicanos do Texas, incluindo o governador Greg Abbott, criticaram a universidade e acusaram McCoul de “doutrinação em ideologia de gênero”.
No dia seguinte à divulgação do vídeo, Welsh demitiu McCoul, justificando que a decisão não se tratava de “liberdade acadêmica, mas de responsabilidade acadêmica”. Segundo ele, o conteúdo ministrado no curso não estava de acordo com a ementa oficial, o que, em sua visão, comprometeria a confiança dos alunos na instituição.
A demissão gerou forte reação entre estudantes e professores, que consideraram a medida uma ameaça à liberdade acadêmica. “Isso é uma tentativa de dizer aos professores o que eles podem ou não ensinar”, afirmou Leonard Bright, professor da universidade. “As regras são claras: somos os especialistas em nossas disciplinas e temos autonomia para elaborar nossos cursos.”
Após ser afastada, McCoul, por meio de sua advogada, declarou que seus direitos constitucionais foram violados e que está recorrendo da decisão.
Mark Welsh, ex-oficial da Força Aérea e presidente da Texas A&M desde 2023, não foi encontrado para comentar sua renúncia. Ele já havia atuado como presidente interino e foi chefe do Estado-Maior da Força Aérea durante o governo Obama, além de ter sido diretor da Bush School of Government and Public Service na própria universidade.
O caso em Texas A&M, uma das maiores universidades públicas dos Estados Unidos, é mais um capítulo do debate nacional sobre liberdade acadêmica, política e diversidade nos campi universitários.
Donald Trump, por sua vez, ameaçou cortar bilhões de dólares em financiamento federal de universidades que não atenderem a uma série de exigências para mudar a cultura dos campi. Professores, estudantes e dirigentes universitários afirmam que essas propostas restringiriam a liberdade acadêmica e violariam a Primeira Emenda da Constituição americana.
No vídeo gravado pela estudante, ela acusa McCoul de ensinar ilegalmente sobre “ideologia de gênero” e questiona o uso do “unicórnio de gênero”, ferramenta que explica diferenças entre identidade e expressão de gênero. “Isso vai contra minhas crenças religiosas e de outras pessoas”, disse a estudante, que não foi identificada. McCoul respondeu: “O que estamos fazendo não é ilegal.”
O deputado estadual Brian Harrison, responsável por divulgar o vídeo, afirmou que buscava a demissão de Welsh há meses. “Precisamos de um conservador ousado para restaurar a universidade e focar nos fundamentos da educação”, declarou. Harrison, ex-aluno da Texas A&M, tem pressionado o Legislativo do Texas por leis que eliminem programas LGBTQ+ e instrução sobre gênero em universidades públicas, mas até agora nenhuma dessas propostas foi aprovada.
Fonte: New York Times
Foto: Sam Craft/Associated Press




