Explosão de casos de gripe preocupa médicos em Massachusetts

Por Sarah Rahal – Equipe do Globe

Massachusetts enfrenta uma temporada de gripe atipicamente forte e precoce, com aumento rápido de casos e internações que já atingem níveis considerados “muito altos” pelas autoridades de saúde. Hospitais relatam prontos-socorros lotados, pacientes com febre elevada e dificuldades respiratórias, além de um crescimento preocupante de complicações graves, especialmente entre crianças.

De acordo com médicos e especialistas em saúde pública, a situação é resultado de uma combinação de fatores: a disseminação acelerada de uma cepa dominante do vírus influenza A, a queda nas taxas de vacinação contra a gripe e o aumento das viagens durante o período de festas de fim de ano, o que pode prolongar a circulação do vírus até a primavera.

“É uma daquelas temporadas em que tudo está caminhando na direção errada”, afirmou a médica Vandana Madhavan, diretora clínica de doenças infecciosas do Mass General Brigham for Children. Segundo ela, ainda é difícil prever quando ocorrerá o pico da doença, que em alguns anos pode apresentar mais de uma onda.

Dados do Departamento de Saúde Pública de Massachusetts mostram que, no fim de dezembro, as consultas por sintomas gripais saltaram de 7,6% para 11,8% em apenas uma semana. No mesmo período, a proporção de atendimentos em prontos-socorros que resultaram em internação por gripe chegou a 9%, quase o dobro da semana anterior e três vezes mais do que no mesmo período do ano passado.

Somente na última semana analisada, o estado registrou cerca de 9 mil atendimentos diários em emergências, sendo aproximadamente um quarto relacionados a doenças respiratórias agudas, como gripe, COVID-19 e vírus sincicial respiratório (RSV).

Em 2024, o pico de internações por gripe ocorreu no início de fevereiro, quando 10,5% das hospitalizações estavam associadas à doença. Segundo o médico Larry Madoff, do Departamento de Saúde Pública de Massachusetts, a trajetória atual indica que esse índice pode ser igualado ou até superado neste ano. “A temporada de gripe deve se estender bem dentro da primavera”, alertou.

Diante do cenário, o Brown University Health anunciou que passará a exigir o uso de máscaras cirúrgicas ou N95 para pacientes, visitantes e funcionários em todas as suas unidades em Massachusetts e Rhode Island, devido às altas taxas de infecção hospitalar.

O quadro local reflete uma tendência nacional. Até 27 de dezembro, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) classificaram a atividade da gripe como “muito alta” em mais da metade dos estados americanos, com estimativas de ao menos 11 milhões de casos, 120 mil hospitalizações e 5 mil mortes nesta temporada, incluindo pelo menos nove crianças.

Em Massachusetts, já foram confirmadas 32 mortes relacionadas à gripe, 29 adultos e três crianças. O estado também investiga possíveis óbitos associados à COVID-19 e ao RSV em menores de 18 anos.

Especialistas apontam que a gravidade deste surto está ligada à predominância da cepa influenza A H3N2, especialmente uma variante genética conhecida como subclado K, que representa cerca de 90% das amostras analisadas pelo CDC. Embora ainda esteja em estudo se essa variante causa quadros mais severos, há indícios de que ela se espalha mais rapidamente e consegue driblar parcialmente a imunidade existente na população.

A situação já havia gerado alertas internacionais, com autoridades do Reino Unido classificando a atual temporada como uma das mais intensas em uma década, além de registros precoces da epidemia no Canadá e no Japão.

Outro fator crítico é a baixa cobertura vacinal. Apenas cerca de 34% dos moradores de Massachusetts receberam a vacina contra a gripe nesta temporada, uma queda em relação aos aproximadamente 40% do ano anterior. Além disso, a cepa em circulação não corresponde perfeitamente à composição da vacina deste ano, resultado das limitações do processo de previsão dos vírus predominantes.

Ainda assim, Madoff reforça que a vacinação continua sendo fundamental. “Mesmo não sendo uma combinação perfeita, a vacina é muito melhor do que não se vacinar”, afirmou, criticando também decisões federais recentes que reduziram recomendações de imunização infantil.

Médicos relatam aumento de complicações graves em crianças, incluindo convulsões febris e casos raros de encefalopatia necrosante aguda. Embora crianças com doenças pré-existentes estejam mais vulneráveis, especialistas alertam que até crianças saudáveis podem evoluir para quadros críticos.

As autoridades de saúde recomendam vacinação, higiene frequente das mãos, isolamento em caso de sintomas e busca rápida por atendimento médico. Segundo Madoff, tratamentos antivirais, como o Tamiflu, podem ser decisivos quando iniciados precocemente, especialmente em grupos de risco.

Foto: Dina Rudick

Fonte: Boston Globe

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