Por Giulia McDonnell Nieto del Rio – Equipe do Globe
BIDDEFORD, Maine — A rotina da pequena Keyli Camila Espin Vaca, de 5 anos, mudou drasticamente na última sexta-feira. Aluna do jardim de infância, ela esperava que a mãe fosse buscá-la na escola, como acontecia todos os dias. Mas isso não ocorreu: Mayra Vaca Latacunga, de 25 anos, foi detida por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) após uma abordagem de trânsito no Maine.
Segundo familiares, Mayra deixou a filha na Biddeford Primary School pela manhã e saiu para fazer compras quando teve o carro parado por agentes federais, que pediram sua documentação. Sem status legal no país, ela foi algemada e transferida para Massachusetts. Mãe solo, Mayra era a única responsável por Camila, que passou a ficar sob os cuidados do tio Javier.
A situação de Camila reflete um cenário que vem se repetindo no estado durante a intensificação das ações federais de imigração. De acordo com autoridades locais, diversas crianças ficaram sem um dos pais após detenções realizadas no âmbito da chamada “Operation Catch of the Day”, iniciativa do Departamento de Segurança Interna (DHS) que prevê a prisão de cerca de 1.400 pessoas. Mais de 200 já foram detidas, segundo a secretária-assistente do DHS, Tricia McLaughlin, em declaração ao Boston Globe.
O governo federal afirma que a operação tem como alvo imigrantes com histórico criminal grave. Já lideranças do Maine contestam essa versão. A governadora Janet Mills declarou que muitos dos detidos são trabalhadores sem antecedentes criminais, citando casos de profissionais empregados e pais de família presos diante dos filhos. Um porta-voz da governadora disse que ela está indignada com a atuação do ICE, especialmente pelo impacto sobre crianças.
Mayra Vaca Latacunga, natural do Equador, entrou nos Estados Unidos há cerca de dois anos, fugindo de violência doméstica. Ela vivia sem documentação legal e não possui registro criminal no Maine, segundo consulta ao sistema estadual. Atualmente, está detida no escritório do ICE em Burlington, Massachusetts. O DHS não comentou especificamente o caso.
Entidades de apoio a imigrantes relatam aumento nos pedidos de ajuda emergencial. Sue Roche, diretora do Immigrant Legal Advocacy Project of Maine, afirmou que dezenas de pessoas procuraram assistência e acusou agentes federais de abordagens em locais públicos, como ruas, mercados e residências.
O impacto também chegou às escolas. Em Biddeford, cidade de cerca de 22 mil habitantes, o superintendente Jeremy Ray informou queda significativa na frequência escolar, motivada pelo medo das famílias. Segundo ele, houve casos de pais detidos enquanto levavam filhos à escola, aumentando a apreensão entre alunos e responsáveis.
Enquanto isso, Camila tenta lidar com a ausência da mãe. Familiares relatam que ela pergunta constantemente quando poderá reencontrá-la e sofre principalmente à noite. “Minha mãe está na prisão”, disse a menina a um repórter do Boston Globe, ao olhar uma foto antiga com a mãe em Nova York. Para os parentes, o temor agora é que novas detenções deixem a criança sem nenhum responsável direto.
O caso segue gerando repercussão entre autoridades locais, líderes comunitários e organizações de direitos dos imigrantes, em meio ao avanço das operações federais no Maine.
Foto: Finn Gomez para o Boston Globe
Fonte: Boston Globe




