Motoristas de app viram alvo do ICE em Washington, enquanto empresas de tecnologia permanecem em silêncio

Por Matt Sledge, Jessica Washington – The Intercept

Operações com apoio da polícia local têm detido entregadores imigrantes, especialmente venezuelanos, em meio à ausência de posicionamento de empresas como Uber, Grubhub e DoorDash.

Em meio a uma intensificação da repressão federal em Washington, agentes do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA), com apoio da polícia metropolitana, têm mirado motoristas de entrega que trabalham para plataformas como Uber, Grubhub e DoorDash. A ação faz parte de uma ofensiva mais ampla iniciada após a federalização da força policial da capital em 11 de agosto.

Na última semana, moradores de um prédio residencial em Washington testemunharam a abordagem de um entregador por agentes armados e policiais locais. O motorista teve sua moto apreendida e, apesar dos protestos da comunidade, foi levado pelas autoridades. Um dos policiais chegou a cuspir na direção de um morador que protestava contra a prisão.

Cenas como essa têm se repetido na cidade, onde os entregadores — muitos deles imigrantes recém-chegados, especialmente da Venezuela — se tornaram alvos preferenciais do ICE. Segundo Michael Lukens, diretor executivo do Amica Center for Immigrant Rights, organização que presta apoio a pessoas em processo de deportação na região, a escolha por esse grupo se deve à facilidade de abordagem. “Eles estão nas ruas, são visíveis e, em sua maioria, imigrantes. É uma forma preguiçosa de atuação do ICE”, afirmou.

A polícia de Washington afirmou, em nota, que as ações fazem parte da “Operação Ride Right”, iniciada em 2024 para responder a queixas sobre o uso irregular de scooters. Desde então, foram apreendidos cerca de 1.249 veículos, feitas 139 prisões e emitidas 1.258 notificações de infração. No entanto, a nota não menciona a participação do ICE, que, segundo o Washington Post, tem atuado em conjunto com a polícia para verificar o status migratório dos motoristas.

Vídeos publicados por moradores mostram agentes mascarados do ICE abordando entregadores de forma violenta, inclusive dentro de estabelecimentos comerciais. O Amica Center já registrou aumento no número de clientes detidos que trabalhavam como entregadores antes da intensificação da repressão.

Apesar da ofensiva contra seus trabalhadores, as principais empresas de entrega por aplicativo — Uber, Grubhub e DoorDash — não se manifestaram publicamente. A postura contrasta com a reação de empresas de transporte por aplicativo durante o primeiro mandato de Donald Trump, quando Uber e Lyft se posicionaram contra o veto a viajantes de países muçulmanos.

Para Katie Wells, diretora de pesquisa do Groundwork Collaborative e coautora de um livro sobre o crescimento da Uber, o silêncio não surpreende. Segundo ela, essas empresas sempre exploraram trabalhadores de baixa renda, que atuam como contratados independentes e não recebem suporte adequado, mesmo diante de riscos físicos e econômicos. “A violência, o estresse de cumprir prazos e a desativação de contas sem explicação tornam o trabalho extremamente difícil”, afirmou.

De acordo com Sergio Avedian, motorista, consultor do setor e colaborador do site Rideshare Guy, muitos imigrantes sem documentação alugam contas de entrega de pessoas legalmente autorizadas a trabalhar nos EUA. Em alguns casos, os donos das contas não repassam corretamente os ganhos combinados, agravando ainda mais a situação dos entregadores.

Avedian destaca que o setor de aplicativos sempre contou com trabalhadores indocumentados para manter seus serviços rápidos e disponíveis 24 horas por dia, mas pouco fez para garantir condições justas. “O capital não se importa com justiça. Mas meu coração está com esses imigrantes. Eles são explorados de todas as formas possíveis”, concluiu.

Foto: Andrew Leyden/Getty Images

Fonte: The Intercept

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