Por Jim Puzzanghera – Boston Globe
Ao assumir a presidência, Donald Trump prometeu cortar drasticamente o déficit do orçamento federal dos Estados Unidos. No entanto, quase um ano depois, os resultados são modestos e as perspectivas para os próximos anos não são animadoras.
O governo federal encerrou o último ano fiscal, no outono, com um déficit de US$ 1,8 trilhão praticamente igual ao do ano anterior. Isso ocorreu mesmo após a implementação da iniciativa DOGE para reduzir gastos públicos, demissões em massa de servidores federais e a criação de novas tarifas que geraram quase US$ 200 bilhões em receitas extras.
Segundo cálculos do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), as ações de Trump reduziram o déficit em apenas US$ 41 bilhões, ou 2%, em relação a 2024. Os cortes foram compensados por aumentos de despesas, incluindo um salto de 8,3% nos juros pagos sobre a dívida nacional, que chegou a US$ 38 trilhões. Pela primeira vez, os pagamentos anuais de juros ultrapassaram US$ 1 trilhão.
Brett Loper, vice-presidente executivo de políticas da Peterson Foundation, afirmou que o problema do orçamento é estrutural e demográfico, e que nem Trump nem o Congresso estão enfrentando essas questões de frente.
Vale lembrar que Trump esteve no cargo por cerca de oito meses do ano fiscal de 2025, encerrado em 30 de setembro. Nesse período, o déficit foi US$ 350 bilhões menor do que no mesmo intervalo de 2024, mas as políticas do presidente ainda não estavam totalmente implementadas.
Analistas não partidários alertam que as medidas em andamento tendem a aumentar, e não reduzir, o déficit anual. O CBO projeta que o pacote legislativo republicano “One Big Beautiful Bill”, aprovado no verão, deve elevar o déficit em US$ 4,1 trilhões entre 2025 e 2034, ao combinar cortes e aumentos de impostos com reduções e elevações de gastos. Além disso, Trump pretende usar a receita das tarifas para distribuir cheques de US$ 2.000 a cidadãos americanos no próximo ano, o que pode ampliar ainda mais o rombo fiscal.
O senador Rand Paul, republicano do Kentucky, criticou a proposta dos cheques financiados por tarifas, dizendo que a medida agravaria o déficit, que pode chegar a US$ 2 trilhões neste ano fiscal. Paul foi um dos três senadores republicanos a votar contra o “One Big Beautiful Bill”, alegando que o projeto aumentaria o déficit, contrariando promessas de campanha de Trump.
Durante a campanha de 2024, Trump prometeu reduzir os déficits a quase zero e quitar a dívida do país, repetindo promessa feita em 2016, quando afirmou que eliminaria a dívida nacional em oito anos. No entanto, a dívida aumentou US$ 7,8 trilhões em seu primeiro mandato, enquanto sob Joe Biden o crescimento foi de US$ 8,5 trilhões.
O porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, afirmou que Trump ainda tenta corrigir o que chamou de “má gestão fiscal” do governo Biden. Segundo ele, tarifas, cortes obrigatórios e reformas para estimular o crescimento já teriam reduzido o déficit em centenas de bilhões de dólares, com expectativa de mais avanços nos próximos anos.
Durante a pandemia, os déficits explodiram sob Trump e Biden, mas mesmo após a crise, o déficit permanece elevado. O diretor do CBO, Phillip Swagel, destacou ao Comitê de Orçamento da Câmara que é incomum ter déficits tão altos fora de períodos de pandemia, recessão ou guerra.
As tarifas sobre produtos estrangeiros são peça-chave da estratégia fiscal de Trump, embora desacelerem o crescimento econômico e aumentem a inflação. O CBO informou que a arrecadação com tarifas saltou para US$ 195 bilhões em 2025, contra US$ 77 bilhões no ano anterior. Apesar de Trump afirmar que o dinheiro vem do exterior, as tarifas são pagas por importadores americanos.
A renda gerada pelas tarifas ajudou a conter o déficit em 2025, mas, segundo a Tax Foundation, o envio dos cheques de US$ 2.000 pode custar entre US$ 280 bilhões e US$ 607 bilhões, dependendo do formato, e aumentar ainda mais o déficit.
O deputado democrata Brendan Boyle, da Pensilvânia, criticou a estratégia de Trump, dizendo que os republicanos priorizam cortes de impostos para os mais ricos e acabam ampliando a dívida. Ele citou o “One Big Beautiful Bill” como o maior aumento da dívida da história americana.
O senador Ron Johnson, republicano de Wisconsin, apoiou o projeto por prorrogar cortes de impostos de 2017, mas lamentou a falta de cortes mais profundos nos gastos. Johnson também apoiou a iniciativa DOGE, liderada por Elon Musk, mas reconheceu que a economia gerada ficou aquém do prometido: US$ 241 bilhões, segundo o site da DOGE, frente à promessa de US$ 2 trilhões.
A Reuters informou que a DOGE foi oficialmente encerrada, mas o perfil oficial da iniciativa negou a informação.
Para Brett Loper, da Peterson Foundation, o verdadeiro desafio está nos gastos obrigatórios, como Previdência Social e Medicare, que crescem rapidamente devido ao envelhecimento da população. Ele destacou que os pagamentos de juros já superam os gastos com Medicare e Defesa, tornando-se o segundo maior programa federal, atrás apenas da Previdência.
Loper afirmou que tanto democratas quanto republicanos têm responsabilidade pelo aumento do déficit nas últimas décadas e sugeriu uma comissão fiscal especial para dividir o ônus político, embora reconheça que tentativas anteriores fracassaram. Boyle, por sua vez, considera a proposta uma forma de adiar decisões difíceis.
Enquanto isso, o déficit segue elevado e a dívida nacional continua crescendo. Questionado se Trump está suficientemente focado no problema, Johnson respondeu: “Poucas pessoas estão realmente focadas nisso.”




